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Compreender a Deficiência Mental

As respostas adequadas às necessidades educativas especiais dos alunos com Deficiência Mental depende muito da compreensão da deficiência, mas também do conhecimento que se tem destes alunos. Procuramos neste documento deixar pistas para uma melhor compreensão do que é a Deficiência Mental.

Leonor Barroso

Psicóloga

 

 

Caracterização


A Deficiência Mental é uma perturbação do desenvolvimento intelectual que se manifesta durante o período de desenvolvimento, antes dos 18 anos. Caracteriza-se por um nível de funcionamento intelectual (avaliado através de testes de inteligência estandardizados) significativamente abaixo da média, e por limitações significativas das competências de vida diária (comportamentos adaptativos).

A Deficiência Mental ocorre em 2.5-3% da população geral, independentemente de características raciais, étnicas, educacionais, sociais ou económicas. As suas manifestações surgem na infância ou adolescência, antes dos 18 anos, e habitualmente persistem até ao estado adulto.

O diagnóstico de Deficiência Mental é feito quando um indivíduo tem um nível de funcionamento intelectual significativamente inferior à média e possui limitações graves em duas ou mais áreas do comportamento adaptativo. O nível de funcionamento intelectual é obtido através de testes estandardizados que avaliam a capacidade de raciocínio em termos de idade mental (coeficiente intelectual ou Q.I.). A Deficiência Mental caracteriza-se por um resultado de Q.I. inferior a 70-75. Os comportamentos adaptativos são competências necessárias à vida diária: incluem a capacidade de produzir e compreender linguagem (comunicação); competências de vida doméstica; o uso dos recursos da comunidade (saúde, segurança, lazer...); cuidados pessoais; competências sociais; competências académicas funcionais (leitura, escrita e aritmética); e capacidade de trabalho.

A maioria das crianças com Deficiência Mental atinge as aquisições do desenvolvimento, tais como andar e falar, mais tarde do que é normal. Os sintomas da Deficiência Mental podem manifestar-se logo após o nascimento ou durante a infância. O momento da sua manifestação depende bastante da causa da deficiência. Alguns casos de Deficiência Mental não são diagnosticados antes da entrada da criança no infantário ou escola. É comum que estas crianças apresentem dificuldades nas competências sociais e de comunicação e nas aquisições académicas funcionais. As crianças com doenças neurológicas, tais como encefalite ou meningite, podem repentinamente manifestar sinais de dificuldades cognitivas e adaptativas.

 

 

Classificação

A gravidade da Deficiência Mental é variável. O Manual Estatístico de Diagnóstico das Perturbações Mentais, 4ª Edição (DSM-IV) é o manual mais utilizado pelos profissionais da saúde mental nos EUA e na Europa. O DSM-IV propõe a classificação da Deficiência Mental segundo quatro níveis de gravidade: ligeira, moderada, grave e profunda. Estas categorias baseiam-se no nível de funcionamento do indivíduo.

É importante ter a noção de que os efeitos da Deficiência Mental são muito variáveis. As diferenças existentes entre crianças com o mesmo diagnóstico justificam a avaliação pormenorizada dos domínios cognitivo, afectivo, comportamental, social e ecológico (e.g. família, escola, etc.).

  • DEFICIÊNCIA MENTAL LIGEIRA

Aproximadamente, 85% da população com Deficiência Mental pertence a esta categoria. O seu Q.I. varia entre 50-75. São pessoas mais lentas na assimilação da informação e na aprendizagem de competências académicas. Durante os primeiros anos de vida a Deficiência Mental não é manifesta e pode não ser identificada até à entrada na escola. Quando adultos, muitos levam uma vida independente em comunidade, trabalham e podem não ser vistos como pessoas com Deficiência Mental.

  • DEFICIÊNCIA MENTAL MODERADA

Cerca de 10% da população com Deficiência Mental pertence a esta categoria. O Q.I. dos indivíduos com Deficiência Mental moderada pode variar entre 35-55. Levam a cabo tarefas de trabalho ocupacional e de cuidados pessoais com supervisão. Com intervenção precoce, educação especial e os apoios adequados, quando adultos, poderão ter uma vida em comunidade satisfatória e viver em residências supervisionadas

  • DEFICIÊNCIA MENTAL GRAVE

Aproximadamente 3-4% da população com Deficiência Mental é gravemente afectadas. As pessoas com Deficiência Mental grave possuem um Q.I. que pode variar entre 20 e 40. Podem dominar cuidados pessoais básicos e algumas competências de comunicação. Muitos destes indivíduos estão aptos para viver com um grupo em residências apoiadas.

  • DEFICIÊNCIA MENTAL PROFUNDA

1-2%, apenas, da população com Deficiência Mental é classificado desta forma. As pessoas com Deficiência Mental profunda têm um Q.I. variável entre 20-25. Podem ser capazes de desenvolver algumas tarefas básicas de cuidados pessoais e comunicação com apoio e treino apropriados. A sua deficiência está, geralmente, acompanhada de perturbações neurológicas. 

Os deficientes mentais profundos requerem um alto nível de estruturação e supervisão.

 

  • UMA CLASSIFICAÇÃO COMPLEMENTAR

A Associação Americana para a Deficiência Mental (AAMR) desenvolveu recentemente um sistema de classificação para a Deficiência Mental. Esta classificação assenta nas capacidades da pessoa com Deficiência Mental em vez de assentar nas suas limitações. O sistema de classificação da AAMR é composto por três etapas e descreve o tipo de apoios que a pessoa pode necessitar para superar o estado actual do seu comportamento adaptativo. Numa primeira etapa são administrados individualmente, por profissionais qualificados, um teste de avaliação intelectual estandardizado e de um teste de avaliação dos comportamentos adaptativos. Numa segunda etapa são descritas as áreas fortes e fracas da pessoa com Deficiência Mental, segundo quatro dimensões: 

1. Capacidade intelectual e comportamento adaptativo

2. Considerações psicológicas e emocionais

3. Considerações físicas, de saúde e etiologia

4. Considerações ambientais

As áreas fortes e fracas são avaliadas através de provas formais, observação, entrevistas com o indivíduo e pessoas significativas na sua vida e compartilhando aspectos da vida diária da pessoa com Deficiência Mental. A terceira etapa requer uma equipa interdisciplinar para determinar o apoio que o indivíduo necessita em cada uma das dimensões acima referidas. Para cada apoio identificado é assinalado um de quatro níveis de intensidade – intermitente, limitado, extensivo ou difusivo. Apoio intermitente significa dar apoio "quando é necessário". Um exemplo seria o apoio que uma pessoa necessita para encontrar emprego, caso tenha ficado desempregado. O apoio intermitente pode ser necessário ocasionalmente por um indivíduo adulto.Apoio limitado significa dar apoio durante um período de tempo limitado, como durante a transição entre a escola e o trabalho ou durante a formação profissional. Este tipo de apoio tem um tempo limitado, o tempo necessário para proporcionar o apoio que o indivíduo necessita. Apoio extensivo refere-se ao apoio diário, sem limite de tempo, que um indivíduo necessita numa área da sua vida. Este tipo pode envolver apoio em casa e/ou no trabalho. Pode acontecer que estes tipos de apoio (intermitente, limitado e extensivo) não sejam necessários a um indivíduo em todas as áreas da vida. Apoio difusivo refere-se ao apoio constante no meio ambiente e áreas de vida, pode incluir medidas sociais de sustento. Uma pessoa que requer apoio difusivo necessitará de assistência diária em todas as áreas da sua vida.

 

Etiologia

A Deficiência Mental pode ser causada por qualquer condição que impeça o desenvolvimento cerebral antes do nascimento, durante o nascimento ou durante a infância. Embora sejam conhecidas centenas de causas para a Deficiência Mental, a etiologia permanece desconhecida em cerca de 35% da população afectada. As três principais causas, conhecidas, da Deficiência Mental são a Síndrome de Down ou Trissomia 21, a Síndrome Alcoólica Fetal e a Síndrome de X frágil. As causas da Deficiência Mental podem categorizar-se da seguinte maneira: 

  • Condições Genéticas – Estas são resultado de anormalidades dos genes herdados dos pais, de erros quando os genes se combinam ou de outras alterações dos genes causadas por infecções durante a gravidez, por exposição a raios X ou outros factores. Os erros inatos de metabolismo que podem provocar Deficiência Mental, tal como "PKU" (fenilcetonúria) pertencem a esta categoria. A fenilcetonúria é uma síndrome causada pela acção recessiva de um gene que se caracteriza, entre outras coisas, pela incapacidade de metabolizar a fenilamina (um aminoácido básico presente em muitas substâncias que têm proteínas). Algumas anomalias cromossómicas estão igualmente relacionadas com a Deficiência Mental, tais como a Síndrome de Down e a Síndrome X frágil. 

  • Condições pré-natais e peri-natais – A Síndrome Alcoólica Fetal é causada pela ingestão excessiva de álcool durante as primeiras doze semanas de gravidez. Alguns estudos demonstram que mesmo o consumo moderado de álcool durante a gravidez pode causar dificuldades de aprendizagem à criança. O uso de drogas durante a gravidez encontra-se também relacionado com a Deficiência Mental. Algumas infecções e doenças maternas tais como, desordens glandulares, rubéola, toxoplasmose, a infecção pelo citomegalovírus e a infecção pelo vírus da imunodeficiência humana (HIV) com origem na vida pré-natal podem causar Deficiência Mental. Quando a mãe têm a pressão sanguínea alta (hipertensão), o fluxo de oxigénio para o feto pode ser reduzido e causar lesões cerebrais e Deficiência Mental. Apesar qualquer condição de carácter excepcional poder lesionar o cérebro do bebé ao nascer, 
    um bebé prematuro e que tenha um baixo peso ao nascer pode ter sérias implicações no desenvolvimento.

  • Lesões e doenças na infância – O hipertiroidismo, varíola, sarampo e a "Hib" (Hemofilia Influenza tipo b), uma infecção bacteriana, podem ser causa de Deficiência Mental se não forem adequadamente tratadas. A infecção da membrana que cobre o cérebro (meningite) ou a inflamação do próprio cérebro (encefalite) provocam um aumento de volume que pode originar lesões cerebrais e Deficiência Mental. Os acidentes, tais como traumatismo craniano e anóxia (quase afogamento) podem também causar lesões cerebrais. 

  • Factores Ambientais – Crianças negligenciadas que não tiveram a estimulação física e intelectual necessárias para um desenvolvimento normal, podem sofrer danos psicomotores irreversíveis. Crianças que vivem em situações de pobreza e sofrem de má nutrição, más condições de vida e de cuidados de saúde inadequados estão sujeitas a um risco acrescido. A exposição a substâncias como o chumbo e o mercúrio podem também causar lesões cerebrais e Deficiência Mental.

 

Diagnóstico

Quando existem suspeitas de Deficiência Mental deve-se imediatamente realizar um exame físico compreensivo e fazer a história médica afim de descobrir alguma causa ou sintoma orgânico. Algumas condições, como o hipertiroidismo e a fenilcetonúria são tratáveis. Se estas condições  forem detectadas precocemente, a progressão da deficiência podes ser travada e, em alguns casos, parcialmente revertida. Se a suspeita recai sobre uma causa neurológica, como uma lesão cerebral, a criança deve ser encaminhada para um neurologista ou neuropsicólogo para avaliação.

É feito um historial médico, familiar, social e educativo a partir dos registos médicos e escolares existentes e a partir das entrevistas levadas a cabo com os pais. Às crianças são administrados testes de inteligência com o objectivo de avaliar as suas capacidades de aprendizagem e funcionamento intelectual. Os testes mais utilizados são as Escalas de Inteligência de Weschler (WISC e WAIS). Com crianças mais novas são utilizadas as Escalas de Bayley de Desenvolvimento Infantil para avaliar o desenvolvimento motor, da linguagem e a capacidade de resolver problemas. As Escalas de Desenvolvimento Mental de Ruth Griffiths são utilizadas com crianças dos 0 aos 8 anos para avaliar o desenvolvimento locomotor, pessoal e social, audição e linguagem, coordenação olho-mão, realização e raciocínio prático. É fundamental o uso de entrevistas com os pais ou com as pessoas que tenham a criança a seu cuidado, no sentido de conhecer o dia a dia da criança, as suas capacidades de comunicação e de autonomia. A Escala de Comportamentos Adaptativos de Vineland (VABS) é também frequentemente utilizada.

 

 

Tratamento

Para as crianças com idades compreendidas entre os 0 e os 6 anos existem, em alguns concelhos, serviços ou programas de Intervenção Precoce que fazem a avaliação e acompanhamento de crianças com atraso de desenvolvimento e respectivas famílias. As Necessidades Educativas Especiais destas crianças serão tema da 2ª parte deste artigo.O treino das competências de autonomia e a formação profissional deve iniciar-se no início da adolescência. 

O nível de competências atingido depende bastante do grau de Deficiência Mental dos Indivíduos em formação. Os jovens com Deficiência Mental ligeira, geralmente, adquirem as competências necessárias para terem uma vida independente e para manter um emprego. Os portadores de deficiência moderada e profunda necessitam de supervisão permanente para viverem em residências de grupo.

Em Portugal, o treino de competências de autonomia pessoal e social e de aquisições académicas funcionais, a formação profissional e o acompanhamento após a integração profissional é levado a cabo por instituições vocacionadas para o efeito, nomeadamente as CERCI's e as APPACDM's. A terapia familiar pode ser uma ajuda para que os familiares de pessoas com Deficiência Mental desenvolvam estratégias adequadas para lidar com os seus problemas e ansiedade. Pode igualmente ajudar os pais a lidar com sentimentos de culpa ou de revolta. Um ambiente familiar estável e equilibrado é importante para que a pessoa com Deficiência Mental consiga atingir todos os seus potenciais. 

 

 

Prognóstico

As pessoas com Deficiência Mental ligeira e moderada habitualmente atingem níveis satisfatórios de auto-suficiência que lhe permitem levar uma vida feliz. Para atingir estes níveis necessitam, no entanto, de um suporte educativo adequado e consistente e de apoio comunitário, social e familiar. No entanto, esta perspectiva é menos optimista no que respeita àqueles com deficiência grave e profunda. Alguns estudos apontam para uma esperança de vida mais reduzida para estes indivíduos, já que as perturbações geralmente associadas à Deficiência Mental grave e profunda podem causar um tempo de vida médio mais curto do que é normal. Algumas pessoas com Síndrome de Down desenvolvem alterações neurológicas semelhantes às da doença de Alzheimer na fase final da vida, chegando a manifestar os sintomas característicos desta doença.

 

 

Prevenção

Nos últimos 30 anos tem havido avanços significativos na investigação para a prevenção de muitas das causas da Deficiência Mental. Actualmente podem ser evitadas situações de:

  • Deficiência Mental causada por Fenilcetonúria – PKU, através do rastreio de todos os recém-nascidos e com tratamentos dietéticos;

  • Deficiência Mental causada por condições congénitas da tiróide, graças a análises feitas a recém nascidos e a terapias hormonais à tiróide;

  • Deficiência Mental ou surdez com a injecção de Rhogam para prevenir o factor Rh e a icterícia severa em recém nascidos;

  • Deficiência Mental causada por encefalite devida ao sarampo, graças à vacinação para o efeito; 

  • Deficiência Mental causada pela rubéola durante a gravidez, graças à vacinação generalizada das raparigas;

Novos esforços para o tratamento de uma variedade de causas estão em desenvolvimento. Existem agora melhores formas de tratar traumatismos cranianos, anóxia (falta de oxigénio) e doenças contagiosas para reduzir os seus efeitos nefastos ao cérebro. De igual modo, os cuidados pré-natais precoces e extensos e medidas de prevenção antes e durante a gravidez aumentam as possibilidades de prevenção da Deficiência Mental nos bebés. As medidas de Intervenção Precoce que se começam a generalizar para todas as crianças em risco ou com atraso de desenvolvimento têm demonstrado resultados muito positivos na redução da incidência estimada dos efeitos das diversas condicionantes no desenvolvimento.

 

 

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